quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

China: o dragão ingrato

     Todos temos conhecimento do desmoralizante comércio entre Brasil e China, onde exportamos matérias-primas e importamos produtos industrializados. Esse descompasso surge das diferentes visões dos governos, o brasileiro sempre com a mentalidade de colonizado não investe na infra-estrutura do país o que encarece os produtos nacionais. Na China ocorre o contrário o governo quer se tornar um colonizador e não poupa um centavo para desenvolver o país. 

Mina de Brucutu em Minas Gerais
        Sempre criticamos essa postura do governo brasileiro e vemos o Dragão asiático como um exemplo (econômico, e nada mais) para nós. Algumas empresas tupiniquins perceberam que se não tomassem uma atitude seriam engolidas pela China e investiram em infra-estrutura própria, financiando a cadeia a que pertencem e protegendo seus interesses. O melhor caso é a Vale, principal produtora mundial de minério de ferro.

      Seu principal cliente é a bendita da China e pela distância o minério brasileiro perde competitividade em relação ao minério africano e australiano. O frete para os portos chineses custa U$ 25 por tonelada de minério a partir do Brasil, porém custa apenas U$12  a partir da Austrália. Outro agravante para o comércio Vale-China é a volatilidade dos preços dos fretes que em 2008 chegou a ser maior que o valor do próprio minério. Também em 2008 devido à crise as empresas que faziam o transporte simplesmente deixaram de enviar navios aos portos brasileiros o que acarretou um prejuízo de 4 bilhões à Vale e a consequente demissão de funcionários. 
Navio Vale Brasil, maior graneleiro do mundo
        Nesse cenário preocupante a mineradora decidiu encomendar navios para garantir parte do transporte do ferro, uma vez que depender exclusivamente de outras empresas tornara-se arriscado. Essa nova frota de 35 embarcações consiste em 19 navios de propriedade da Vale e 16 de empresas chinesas e sul-coreanas. Na época dos pedidos aos estaleiros o governo brasileiro ficou furioso pelo fato de não terem sido direcionados à indústria nacional. O contrato de 2 bilhões de dólares (valor dos 19 que pertencem à Vale) foi firmado com a justificativa de que a Ásia oferecia melhores preços e tecnologia, o que é verdadeiro e legítimo. A indústria nacional reclamou, mas nada pôde fazer. A mineradora pretendia economizar em escala e esses eram os maiores navios de transporte de minérios do mundo, os chamados, Valemax que suportam até 400 mil toneladas de carga.

         As indústrias chinesa e coreana ficaram extremamente satisfeitas, pois em tempos de crise receber uma encomenda dessas é uma notícia extremamente agradável. 

Agora em 2012, com o agravamento da crise na Europa e fraco desempenho econômico dos EUA os armadores chineses vivem uma das piores crises de sua história, muitos navios estão parados em consequência da redução dos fretes destinadas a esses países. E a ira da industria naval chinesa agora se volta contra aquele que a ajudou em momentos difíceis, a                  Vale. A poderosa Associação de Proprietários de Navio da China (CSA, na sigla em inglês), cujas empresas representam 80% do setor no país pressionou Pequim a proibir a atracagem de supernavios em seus portos, afetando diretamente a mineradora brasileira.

Minério de ferro no porto de Tianjin, China.
          A CSA teme que a mineradora monopolize o comércio de minérios entre Brasil e China e provoque a quebra de empresas locais. E como desculpa alega que os portos chineses não comportam navios tão grandes. Irônico não? A Vale pode sem problema algum fazer encomendas aos estaleiros chineses em detrimento da industria nacional, mas de forma alguma pode transportar minério por conta própria, pois afeta os interesses chineses.


        Claro que a Vale não será  a única prejudicada, mas será a principal pois pouquíssimas empresas do mundo operam navios que chegam a transportar até 400 mil toneladas. Agora a única saída da empresa é utilizar os portos filipinos e malaios numa operação de transbordo do minério a navios menores. Manobra que anulará parte dos ganhos em escala do transporte nos supernavios Valemax.

        A "nossa" antiga CVRD havia conseguido uma boa estratégia mas despertou o gigante ingrato. Enquanto nossas empresas são sufocadas pelo poderio econômico de Pequim o governo brasileiro financia e exonera a instalação de companhias chinesas, numa clara manobra de desindustrialização nacional. Agora me respondam como os chineses construíram navios que não cabiam em seus portos?

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